André Ratto

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Reflexo

O abandono de quando saio de mim e me encontro por outros eus afins,
em contos outros, fábulas alheias é um achado,
e o quando olho-me no espelho e não escapo do arremedo,
e não engano nem o meu próprio reflexo, é um barato.
Me ardo só,
não me escapo,
minha ética é meu tato, calo, carma, consciência...
minha vida, uma arrítmica cadência.
Eu tento, mas não me traio e caio em paciência.

Enviado em 13 de março de 2000.


Retalhos

Eu sou o tempo, que é contraditório,
sou o bêbado que perde o rumo de casa, mas sempre volta,
eu sou vento que assopra,
eu sou a poça d'água,
a minha própria mágoa,
eu sou a anágua engomada da minha avó,
eu sou a beira da estrada,
a lâmpada queimada que não foi trocada e observa dependurada, passagens ao redor,
eu sou o pó...
soprado pelos ventos sem destino e dó,
eu sou a própria luz correndo dentro de mim, dando voltas, derrubando portas, soltando as cobras e os sapatos,
eu tô refazendo laços com um passo dado há muito tempo atrás,
eu sou o resto do passado,
o oco cheio de pecado, eco abafado,
aparado, com pontas e sobras remendadas,
eu sou o nada que preenche o vão da entrada da minha alma, da minha falta de gritar,
de originar barulho,
de originar trabalho,
retalhos... da minha vida.

Enviado em 02 de março de 2000.


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