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Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.
O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfundível som do último acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bashô sonhara, é despedida
que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço
em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
De servir-se utensílio dia a dia
utilidade prática aplicada,
o nada sobre o nada anula o nada
por desvendar mistério na magia.
O sonho em fantasia iluminada
aqui se oferta em módica quantia
por camelôs de palavras aladas
marreteiros de mansa mercancia.
De pagamento, apenas um sorriso
de nuvens, uma fatia de grama
de orvalho, e o fugaz fulgor de astro arisco.
Serena sentença em sina servida,
seu valor se aquilata e se esparrama
na livre chama acesa de quem ama.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Desejado soneto este que é escrito
sem as firulas graves do solene,
que leva nas palavras simples rito
do falar cotidiano. Não condene
no entanto, a falta de um estro especioso,
nem de brega rotule esse meu vezo.
Apenas sinta o som oco e poroso
do fundo mar de anêmonas, o peso
rarefeito das algas nos peraus.
Essa cantiga filtra nossos medos,
as culpas e os tabus, e dá-me o aval
para buscar o simples e em querê-lo
ornamento de estética espartana
na faxina ao supérfluo que se espana.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Para solo de Avena
Em cerdas de seda arremeto em pausa
meu coração toca arremato em pouso
música de pasto linha de nervura
nervos de galope todo corpo é frouxo
na ravina clara todo corpo é fúria
As línguas de fogo são galhos erguidos
incendeiam tufos tuas mãos ardentes
brasas de gramínea regendo canteiros
amornam primícias e a secreta rosa
no rubro casulo desvela essa tosa
Um sol veste orgasmo nas ervas das água
e se põe arco-íris remato regato
e o jato de curva molhado regaço
alavanca a arma tão umida/mente
em forte arremesso sereno adormeço
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas
O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula
O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido
Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita
Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio
O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino
Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta.
A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa.
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta.
Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência.
Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
É preciso urgente cortar os excedentes.
Nada de adiposidades.
Estamos em crise.
Os adjetivos que me perdoem,
os substantivos são mais esbeltos,
e a Nova Era recomenda que sejamos seletos.
Há uma pena de andorinha voando à toa.
Há um redemoinho que nos afunda a proa.
Há uma onda marejada que não se escoa.
É preciso pôr um bêbado no timão do barco.
Que saiba das marés pelo trago das estrelas,
que saiba afundar levantando um brinde,
e mesmo nos destroços saber-se príncipe
salvo do rescaldo para o cetro da palavra:
La parole est morte. Vive la parole!
Há uma paixão em cada esquina torta.
Há um resto de angústia celebrando a morta.
Há um boi no labirinto procurando a porta.
É preciso correr atrás da utopia que se fez distante,
para que ela volte a habitar os dias mais comuns,
e faça que o sonho se pareça ao sonho,
mesmo sob o manto pessimista da névoa,
afiando o sabre na pedra que restou da cachoeira.
Ah, nuvens vermelhas, derramai vossa chuva de fogo!
Há um canto entravado na garganta.
Há um sufoco que já não me espanta.
Há um espelho que já não me encanta.
É preciso fugir do tempo perdido.
O que ficou pra trás encantou-se com a serpente,
e todos os dias buscamos novos corredores:
aléias renovadas para as pegadas recentes.
Salvemos aqui a parelha dos pés que suporta a canga
nesse itinerário do agora recolhendo ontens.
Há um solitário na mesa de um bar.
Há um suicida na voragem do mar.
Há um reclamante do verbo amar.
É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.
Experimentar o gesto no corpo da amada.
Imprimir no toque a tatuagem serena
para que fique perene quando for saudade:
A vida se amplia num flash de coisas pequeninas,
e o que ficar são ecos de melodia transitória.
Há um desejo que me faz cantor.
Há uma paixão saída da sua cor.
Há um amor na contramão da dor.
Por isso anuncio o canto do meu tempo.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Nas areias do Saara sei-me potro
corcel bebendo o fogo do deserto.
Nas almofadas dunas tão macias
me deito ao sono sonho cavalgando.
Arrebatado sigo sem miragens
teu trote gracioso nesse oásis
de ver nas anchas ancas tantas águas
e sei que a minha sede tem abrigo.
Sedento garanhão de antiga arábia
no solo de Israel lua de alfanje
brilha na tenda a estrela de Davi.
Iluminada alcova ardendo em sândalo
a sarça da paixão demove intrigas
e rega no seu vinho nossos corpos.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que muito
lume de simples lamparina
num raio de curto-circuito
impresso numa chuva fina
nem sempre de ventos fortuitos
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais comum
como essa bigorna batida
forjando a ferradura em U
essa letra de idas e vindas
pisadas num chão de sussurros
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um vão
olho d'água em funda cacimba
lavas de um antigo vulcão
que abriga na sua barriga
o enigma dessa explosão
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um fio
mais que um estuário de eventos
lavados nas águas de um rio
tecido na palha do feno
é mais que um novelo macio
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um meio
e não tem fim essa medida
e cada um vive o rateio
uma dúvida dividida
numa dádiva sem receios
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que menos
menos até que uma ferida
dos muitos amigos serenos
vaidades vãs ressentidas
caídas no barro terreno
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que nada
um solto cavalo sem brida
uma égua fogosa adestrada
as queixas de um falso suicida
são ternas canções dessa estrada
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que sorte
na sua alegria bem-vinda
nas suas fraquezas de porte
não há amor que se maldiga
nem há paixão que se comporte
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que nada
um solto cavalo sem brida
uma égua fogosa adestrada
as queixas de um falso suicida
são ternas canções dessa estrada
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um pífaro
um sopro de som desabrido
nos pés desse sonho tão ínfimo
uma imagem só dissolvida
na breve balada sem ritmo
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que engano
um trocar de pé na descida
um passo a mais sendo paisano
é bala de guerra perdida
nesse mapa cotidiano
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que acerto
inclusive o erro e a decaída
que são como frutos de enxertos
plantados nas curvas perdidas
colhidos no mesmo contexto
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais valia
lucros & perdas perdas - dor mais doída
na conta melhor que se avia
flor da ganância desmedida
tão do Homem nessa porfia
Vida pra que te quero vida?
Uma vida é só uma vida
só uma vida é vivida
melhor se for dividida
e tudo mais é só
e tudo mais é
e tudo mais
e tudo
e
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezin ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Ungido para o fado e a nova festa
Meu carnaval profano já celebra
As quarentenas dívidas da carne
Na cela de costelas das mulheres.
Como devasso réu, confesso fauno,
No vinho das delícias me declaro
Sem culpa e sem pecado original
Pois nessa pena sou igual a tantos.
Já disse certa vez em cantoria:
De nada me arrependo e reconfirmo
Agora que o meu tempo é só de gozo.
A vida que me dou não dá guarida
Nem guarda desalentos de tristeza
Somente na alegria é que me morro.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Ando à toa na vida
catando cacos
do que sobrou da caminhada.
Pedaços que ficaram
por aí evanescentes
na solidão das brumas.
Há um deserto de coisas & palavras
albergado
no bazar de uma casbá
em que me dão preço
num leilão de partes
que restaram deste corpo.
Me anunciam ao preço mínimo,
e nem assim
consigo que me comprem.
As asas perdi-as no Alabama
numa sessão de blues & ragtime,
o outro tinha um royal streat flush;
dos pés só me ficaram as unhas
estas que tu vês como colar
lanhando meu pescoço;
das mãos eis os cotos
que no barro escalavro
a minha escrita;
os olhos joguei-os aos peixes
para aumentar a carga de fosfato.
Apenas a fala que te falo agora
me foi concedida em fogo de santelmo.
- E a tabuleta à testa?
- Escrita em sânscrito,
mas traduzo:
- Vendeu o corpo, e a alma vai de quebra!
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
(Para Marcio Souza e Djalma Limongi Batista
irmãos de geração e da artedo Cinema e do Teatro)
Hoje me sinto repleto
ancho de alegria:
Cínico
de um cinismo incômodo.
Cinematográfico & glauberístico.
Ao contrário do amante aprendiz,
que vez ou outra sentia-se inabitado
vazio
um sem-teto pueril
habitado de irremediável tristeza
presa de passionárias silhuetas
refletindo nas paredes
o recorte de mãos apaixonadas:
um ator de teatro de sombras
subindo e descendo palcos
num folhetim de gestos bruscos
sonhando divas dadivosas
refesteladas em sofás Pel-Mex
sob a luz lilás de um obsceno abajur.
Para este distante inabitado amante
paixão!
Só com guilhotina de lágrimas
(olhos decapitando mágoas)
e um acento castelhano
en la palmita de la mano.
Tudo era de uma sinceridade juvenil
(com toda carga de tragédia e muito sangue)
Ah, películas complacentes do Cine Guarany !
(já não se fazem cabaços como antigamente)
Hoje, não.
Sou um amante da globalidade
filho de Becket e discípulo de Artaud
saco meu sexo como a navalha de Un chien andalous
(em takes de 3D by Spielberg)
cortando o olho da volúpia,
(ao som da clarineta de Woody Allen),
e todas as mulheres do mundo estão a meus pés,
e se arrastam implorando,
(madonas fogosas),
e me chamam através de números estampados na TV,
e meu teatro vem das velas de Zé Celso:
sou um ator assumidamente brega
o doce cínico de um medicine show
o canastrão das putanas de Copacabana.
Boto banca
escolho quem eu quero
sou o dono da transa
o amante experiente
o ator desenvolto
o protagonista do filme
o galã
o chibata
o cara
desempenhando o cínico papel da fita:
"As virgens do Onan virtual".
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
O que sobrou de mim são essas sombras
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
Que me alimenta os ossos da memória.
Nessa voragem vaga, um mar de calma
Lambendo vem a pressa em que me aposto
Na duração que escorre nessa arena.
Do fim regresso fera não domada
Ao mesmo pouso de ave renascida
Para o sol da surpresa nas janelas
Escancarando um solo transmutado.
De baixo para cima é que renovo
As vestes da sintaxe que componho
Clara inversão da jaula das palavras
Para fechar sem chave a minha sina.
................................................................
Para fechar sem chave a minha sina
Clara inversão da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.
Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera não domada.
Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto.
Nessa voragem, vaga um mar de calma
Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim são essas sombras.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
As manhãs da minha infância
chegavam sempre serenas
levadas de claridade
roçando as manhas do sol
nos meus olhos de menino.
E só viam o que viam
por que só queriam ver
o que no olhar revelava
novidade e descoberta
para os meus olhos de festa.
Por que de festa se faz
toda manhã temporã
das cidades acanhadas
perdidas em suas sestas
como a Manaus dessa época.
Manhãs que se embandeiravam
no descanso colorido
dos andaimes de Domingos
construindo em algazarra
os sons nos pés dos moleques
com seus folguedos alegres:
coquinhos de tucumã
no futebol de botão;
pelada para os mais hábeis;
carrinhos de rolimã;
papagaios de papel;
língua do pê, canga-pé,
macaca e barra-bandeira;
pedrinhas e manjalé.
Fora outros passa-tempos
(em que nós todos torcíamos
para que nunca passassem)
partilhados em segredo
com meninas assanhadas
bem mais do que curiosas
unidas num só desejo
de pulsão interior:
sussurros umedecendo
os mistérios revelados
(que não eram os gozosos
das ladainhas das missas)
nos arrepios dos pelos
(ainda ralas penugens)
na pressa dos batimentos
dos corações pequeninos.
Sal na saliva furtiva
no toque breve dos lábios
língua lúdica e cândida
de leve inocência lúbrica
na respiração molhada.
Ciclo regido nas águas
cheiro agreste de alfazema.
No talhe corpos franzinos
adocicando a paisagem
de surpresa e descoberta:
corpos deitados nas tábuas
dos escondidos porões
fugindo aos olhos contrários
de tias e avós zelosas
anjos com suas verdades
(que nunca eram as nossas)
de labareda e pecado.
Querendo aplacar a febre
da nossa chuva de fogo
neblina de suor úmido
de chuva fina na pele
lavando instintos ocultos.
E tudo era muito simples
como as coisas das crianças.
Nada para complicar
a nossa fala em silêncio.
Fala de olhos espertos
na parceria de cúmplices
quebrada só pela voz
da menina impaciente
sempre mais experiente:
-- Põe o teu dentro do meu
não diga nada a ninguém.
Tudo ficava sereno
nos meus olhos de menino.
Depois as águas do banho
gelavam nossos desejos
e o cheiro do peixe frito
era o sinal para o almoço.
E todos sentavam à mesa
com olhos apreensivos
os ouvidos afinados
à espera de algum resmungo
ou de um olhar mais severo
da autoridade paterna
cofiando seu bigode
afiando os mesmos ralhos
cobrando as nossas posturas
de toda semana inteira
como se aquele Domingo
fosse o dia do juízo.
Mas em minha cabecinha
uma lembrança aflorava:
-- Põe o teu dentro do meu
não diga nada a ninguém.
Tudo ficava sereno
nos meus olhos de menino.
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
Ó multifacetária face de ti mesmo
reverso de teus versos mais insuladores
onde revelas pênsil a palavra a esmo
E o eco do teu eco a eclodir nos tambores
faz-se volátil ressoar do teu retrato
nas elegias em que cantas desamores
Pois bem no fundo do teu mais íntimo trato
lá no recôndito de tua geografia
é que o vero signo reveste-se abstrato
Tu e os teus outros, e o teu Outro desafia
o gesto indecifrável do teu canto oblíquo
que logo reverdece em tua engenharia
Ó pêndulo que pende mais ao lado iníquo
a desvelar ocultas idiossincrasias
no labirinto azul do teu ser tão melífluo
que ao mesmo tempo traz amargas fantasias
adredemente enviesadas na vontade
ao avesso polissêmico das travessias
Tua revisitada Lisboa, cidade
por quem a solidão quedou-se-te nos becos
na mais estranha fala perto da saudade
Ó Lisboa de outrora, de hoje, os teus degredos
de tão particulares e silenciosos
passaram como passos teus breves segredos
E voltas a escandir clarões licenciosos
no sol dessa saliva rubra como um halo
tecido em linha reta aos sons maliciosos
que seguem direções nas patas de um cavalo
e se vão semeando em brilho opalescente
até as pradarias por onde me resvalo
O que fica de ti é esse ir morrendo
como a lua de Durban alhures perdida
como as cartas de Ophélia ainda recendendo
o palor dessa paixão de contorno fendida.
Em sete vezes sete exauriste no aval
de Álvaro de Caeiro de Reis na medida
milenar e obscura da cruz do Santo Graal
que te fez cavaleiro da terra querida
para melhor cantar o teu chão Portugal
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.
(Haiku)
Abre o camponês
sulcos de arado na terra.
Em seu rosto rugas.
Jogando a tarrafa
caboclo desfaz a lua.
Pesca estrelas de escamas.
Abro o armário e vejo
nos sapatos meus caminhos.
Qual virá comigo?
Regato tranqüilo:
uma libélua chega
e mergulha os pés.
Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se vai.
Sol no girassol.
Sombra desenha outra flor
no corpo dourado.
Seis hora da tarde:
sons de cigarras prolongam
os sinos do templo.
Cochicho de folhas.
Varre o vento na calçada
secas lembranças.
Na caixa postal
a mão sente a queimadura:
taturana presa.
Folha de jornal
vem no vento ao meu pescoço:
cachecol de letras.
Noitinha na várzea:
com a lua na garupa
búfalos regressam.
Nos gestos da mão
baila a brasa do cigarro:
pisca o pirilampo.
Colhedor de juta
tece barbantes vermelhos:
junto, as sanguessugas.
Inchado de sangue
o velho verme vermelho:
Sanguessuga suga.
Folhas abafadas:
Desperta o uirapuru
a manhã da selva.
Paina de algodão
vem pousar no meu nariz -
Sesta interrompida.
Vai leve no vôo,
manso floco de algodão -
Nuvem passageira?
Menino gripado -
Viu a mãe com algodão,
pensou: é injeção...
Abril chuvas mil!
E o que podemos dizer
das águas de março?
Camponês se alegra
com o fim da estiagem -
É março que chega!
No natal me encontro,
no carnaval eu me perco,
e em março renasço.
A nuvem de outono
passa nos meus velhos olhos
na pressa de sempre.
Aonde irá o pássaro
em seu vôo esgarçando
as nuvens de outono?
A chuva passou
deixando leve cambraia -
A nuvem de outono
Enviado em 05 de fevereiro de 2001.