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Cidade: Belo Horizonte - MG
(Poemas dedicados a amigos que partiram de formas diferentes mas ambos partiram
do mesmo lugar: meu coração.)
I
"E poi morrir"
(Metastasio)
O vento gelado uiva
E sopra forte nos meus ouvidos.
Quer cantar alguma coisa.
Quer contar.
Faz algazarra por entre as folhas.
Amigo?
Tudo é extremamente teu neste dia:
O outono, o sábado, o céu nublado, o silêncio
Este último tão bem usado pelos pássaros daqui .
Entre pios melodiosos, notas de silêncios.
Bela canção.
Não faz propriamente seu gênero
Mas possui a delicadeza que sempre te foi própria.
Intempestivo e delicado.
Aprisionado.
O vento.
Algo sempre esteve por vir
Só que não era o futuro.
Esse não veio.
Virá?
Não, não vem mais.
Você desistiu de esperá-lo
E hoje,
Sujo de noite, resolveu ir sozinho
Buscar o desconhecido, o almejado,
O suspiro que finda o martírio.
Tinha muita pressa para aguardar
Pelos anos que viriam pela frente.
Se libertou do corpo que tanto angustiava sua alma,
Mas aprisionou os sonhos que esperavam pelo amanhã.
Herdeiro de ventos e masmorras
O vento.
Folhas.
A escolha foi sua.
Maldito livre arbítrio que substitui
Deus nas horas cheias.
Pela primeira vez sinto-te saudade.
Talvez esteja feliz.
Não deixou carta,
lágrimas ou acenos.
A véspera foi como todos os seus dias,
Como o seu primeiro .
Onde escolheu pra ficar?
Por que não se despediu de mim, amigo?
O vento.
O silêncio.
Escolheu o vento!
É...e acaba de se despedir.
Um beijo pra você também!
Amigos?
Sempre.
Até a próxima curva.
O Vento.
II
Perfeita formosura em tenra idade
Qual flor, que antecipada foi colhida,
Murchada está na mão da sorte dura.
(Camões, "Sonetos")
A morte , como borboleta preta,
insistiu em permanecer ao meu lado.
Invejosa quis levar você, meu amigo.
Tentou enfeitiçá-lo com seu canto
Canto irresistível de sereia.
Mas você, forte,
quis ser Ulisses e tapar os ouvidos.
Você não queria ir,
ainda lhe faltava escrever um livro
e também ter um filho.
A árvore, plantamos várias quando crianças.
Cada um de seus últimos dias
era como nova canção de Loreley a ser resistida.
Meses passou como tronco de árvore.
Árvore secular de raízes profundas.
O seu sorriso apesar de pálido,
me dizia quem você era:
amigo antigo e sincero, meu enamorado poeta,
meu irmão de sal
com quem compartilhei o mesmo mar.
Eu te pedi pra ficar.
Era parte da minha história,
da minha vida curta, menos curta que a sua.
Tinha parte dos códigos de minha alma,
metade de mim,
tinha todo um futuro longo pela frente,
talvez tinha o meu também...
Meu poeta preferido com olhos de Vinícius,
quantos versos ainda esperavam ser materializados?
...Esperavam...
pois hoje você perdeu a guerra para o corpo enfermo.
O canto de Loreley foi mais alto.
Te perdi...
Deus não veio e nem leu seus versos.
A água salgada do meu mar agitado
está borrando a folha branca...
Hoje fui mutilada na alma.
Eu não disse que te amava...
Te amo.
E agora? Cadê você?
Ei, alguém acenda as luzes.
A brincadeira acabou e eu não te acharei mais.
Ponto ou reticências?
Ponto
Enviado em 14 de março de 2002.
Teu nome,
Marco Antônio
Tem qualquer coisa romana
Como o homem que por
Cleópatra
Fez-se em paixão insana.
Soa grave como um mar revolto
Que cospe com fúria em rochedo
Tem força que para o outro
Silencia cadência de medo.
É um forte nome de filho
É um belo nome de amado
Traz o corpo para meu exílio
E faz do coração aflito, calado.
Tem jeitinho de menino
E é explosivo como que atômico,
É eterno como nunca findo,
É homem por demais lindo,
Teu nome:
Marco Antônio...
Enviado em 14 de março de 2002.
Entre matizes coloridas
e vários sons de silêncios
a nostalgia chega
pelo vento fresco de outono,
bate no meu rosto
e me acorda para o antes "enterrado"
Nesse momento meus olhos
percorrem todo o céu (como se pudessem)
e tentam alcançar
o que está atrás de minhas montanhas.
Alcançam.
Me torno indefesa
frente sinceridade celeste
assim tão serena como a do ocaso...
Serenidade que abre em mim,
a um só golpe e sem nenhuma pena,
nomes,
sons de sino e pássaros,
vozes graves,
sombras, sobras.
Todas, lembranças tingidas pelo tempo que,
em minha vida,
acabou se tornando antigo.
Tempo tão amarelo
quando o tom que pendia sobre a montanha
naquele último suspiro do que foi "dia".
Nessa hora mais que nunca
sinto a tristeza possível...
Possível e interminável
pois os ocasos morrem lentos.
A essa hora, Deus descansa propositadamente ...
As despedidas são sempre belas
e hão de ser contempladas.
Deus sabe disso
e deixa que o dia se despeça lentamente
A primeira estrela nasce
do lado já oculto pela escuridão da noite.
Percebo que o que antes eu não entendia
agora compreendo como nunca...
Nunca soube do que era feito o entardecer,
o quase anoitecer.
Recusava-me acreditar
que eram feitos de "nada".
Eu estava certa.
Esse momento tão especialmente divino
é feito de lembranças tão amarelas
quando o fim daquele dia...
Não entendia antes
pois ainda não tinha lembranças
tão antigas quanto as de agora.
Entardeceres não são para crianças...
Criança acham que todos os dias
repetem todas as tardes.
Só quando tiverem lembranças amarelas
compreenderão que o entardecer não se repete.
É sempre único a cada segundo que dura...
O ocaso então para elas,
Não mais será por acaso .
Enviado em 14 de março de 2002.