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Cidade: Brasília - DF
Deus morreu.
Nietzsche
Nietzsche morreu.
Deus
A vida não é nada.
A vida não é.
Só a dúvida é.
Ou não...
Penso, e quem me garante que existo?
* * * *
De um ímpeto louco e banal a vida de um ser surge, não de barro ou de macacos, mas de
imagens turvas e pensamentos esquálidos. Não posso afirmar que a vida deste ser não
existia ou que a partir de agora, exista. Parece-me que este ser já se mostrava a mim há
tempos, quando não, este ser é nada mais nada menos que um eu turvo e esquálido.
Brinco de Deus, dou vida a minha vida e construo uma outra vida.
Esta vida que construo, embora já existente é do sexo masculino e se chama Klauss. No
momento em que apresento esta nova vida ao mundo, ela se encontra em um estado depressivo,
em uma infinita melancolia, seu espírito está letárgico. Klauss sofre em silêncio e
ninguém percebe.
Klauss se mata.
Sua existência não dura mais que alguns parágrafos.
Mas como? Que Deus sou eu que dá vida a um ser e já o faz em estado depressivo chegando
a se matar?
Por estar a brincar de Deus como a maioria o vê, volto no tempo e pretendo apresentar os
motivos que fizeram a gênese de Klauss tão dramática. Os motivos são simples, o vi
assim e assim o fiz, o percebi assim e assim o concebi. Pecado? Erro? Quem pode dizer-me
que estou errado? Quem pode falar que a morte é algo ruim? Eu sou o Deus aqui. Se eu
criei Klauss, significa que criei um mundo para que ele o perceba e invariavelmente ele o
percebeu, pois se não ele não se encontraria naquele estado melancólico que o levou a
um ato fatídico: o suicídio.
E o que tudo isto significa? Significa que no meu mundo eu crio o ser e dou-lhe a
percepção e já o crio sabendo como ele vai utilizar a percepção pois afinal fui eu o
inventor da percepção. E também fui eu o inventor do mundo a ser percebido por Klauss,
fiz surgir um ser e dei-lhe a capacidade de apreender o mundo com uma percepção que
também eu criei.
(E por alguns instantes eu me calo e contemplo o que acabei de dizer.)
Que viagem a minha! Creio que ao invés de inventar Klauss, deveria eu me ter reinventado como Deus.
* * * *
A vida não é Tudo.
O que a vida é?
Só a dúvida é.
Ou não...
Às vezes não penso, e quem me garante que não existo?
Enviado em 05 de janeiro de 2001.
um magote de juízos
não aprazíveis ao senso comum
quintessenciava os anseios
do flébio garoto
que derretia sua alma
em lágrimas
pela quimera amorosa não consumada
talvez fosse abril
mas a chuvosa adnamia
de fim de ano
mostrava que dezembro é que era
e chovia
Enviado em 05 de janeiro de 2001.
sendo jovem mas não o sendo
claudicam em meu coração
ondas oprimidas de amor
qual levas torrenciais de vento
sinto em meu peito a ponte
que une a implícita secura racional
ao murmúrio teórico de minha vasta alma
e faz jorrar ilusões como fonte
será a sede de um inocente?
ou a estupidez enferma
de um garoto assaz nécio
que não se enxerga inexperiente?
Enviado em 05 de janeiro de 2001.
cria ser tácito
sentia um soneto encoberto
sobre o véu negro do medo
bendizia o oculto
a poética do segredo
e deixava o amor crescer em mistério
o silêncio foi seguindo
o amor se tatuando
e minha alma desesperadamente
abria-se ao inefável
e forjava alvoradas de paixão
oh tolo,
é sempre assim:
a indiferença toma frente
e eu sempre verto pseudo poesias
em aflição
Enviado em 05 de janeiro de 2001.
ah escrever versos risíveis de paixão nefelibática
enquanto o mundo jaz em desigualdades,
conquanto os homens e as mulheres perdem-se em corrupção
de que me serve o platonismo?
por que não escrevo um operário construido
ou como Brecht demonstro os reais heróis?
é tanta miséria em toda esquina
deveras falta de dignidade humana
e eu chorando amores invisíveis, metafóricos
culpa talvez de tanta literatura precoce,
tanto filme europeu e bossa nova
e o árduo é ligar a tv e ver a fome
a culpa também deve ter sido de eu nunca a ter passado
Enviado em 05 de janeiro de 2001.
simbionte
simbiose homem
símio ontem
rei do si
sobre o horizonte
somente homem
sensibilidade sólida
sob o sol
semi-símio
só
simbionte
Enviado em 05 de janeiro de 2001.