Moreira

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Poesia

Estou so no mundo.
A ultima companhia
submergiu em delirios
cosmopolitas.

Fiquei sozinho a boca
vulca desse silencio
entalhado no concreto,
plantando pedras no ar
frio da manha ciana.

Estou so,
possuo u'a mao.

Quando faltar cafe
talvez me desespere
e agrida essa mao hedionda
que e tudo que possuo
estando no mundo
so

Saio a desligar buzinas
e lampadas, inuteis agora.
A cidade e enorme!
Ha muito o que arrumar
para possiveis visitantes.

ercebi certo desconsolo
no aperto de ,ao do amigo, ontem,
antes da submersao.
No entanto, atras dos oculos,
os olhos eram de esperanca
e coube-me,

Enviado em 03 de outubro de 1999.


Remanso

Aos poucos o caminho fica menos íngreme.
Ele, que diziam penoso, torna-se agradável.
As subidas foram vencidas com certo esforço
ate tornarem-se habito e, súbito, emprazeirarem.

Olhar as janelas claras sob o sol de maio,
rir com os meninos no parque, afaga-los;
não mais cobiçar as mocas deslumbradas;
não ansiar, capitalizar mais nada.

Viver vai se tornando exercício sem músculos,
um cotidiano escancaram viveiros
sentindo prazer maior em ter os pássaros livres
a vê-los cantando partituras exclusivas.

Ouvir conversas sem abismar com mais nada.
Ter tempo para ensinar paciência aos novos,
entendendo a individualidade da verdade
que só a franqueza pode tornar geral,

caminhar ereto sob dias e tardes
saudar amigos com sorrisos
ajudar os mocos em seus dias difíceis
com a solução a dois passos da solidão.

Respirar fundo o que os pulmões permitem
doar tudo sem dar o que exigem, os certos.
Descrer em partidos, retóricas, pretensos cristos,
confiar no homem, de olhos abertos.

Cochilar no banco de uma praça
sob o sol, no centro de tudo.
Sonhar, traduzindo a calma
em imensa confiança no mundo.

Enviado em 22 de setembro de 1999.


Gardel

Comprei Gardel,
do pescoço verde e amarelo,
com alguns milhares de cruzeiros.

Gardel era meu.
Verd' amarelo na gaiola,
Gardel cantava em vão.

A garganta de Gardel
era só trinado e solidão.
A minha, rouca,
a do carcereiro torturado.

Gardel no ônibus
na caixa de sapatos
Princípios e razão.

Gardel no mato
debaixo do meu braço,
meus cuidados de pai e mãe.

Abria caixa
abri os braços
Gardel trinou, hesitou

levantou vôo
Ruflou as asas de anjo
verde e amarelo

Sobre as arvores verdes
Gardel livre.
Quem voava era eu.

Enviado em 22 de setembro de 1999.


Mão Inútil

A mão que sustenta o corpo
moldada em barro
esculpida em pedra
forjada em aço
agora repousa, azinhavrada,
em meio à praça.

Crianças e ex-combatentes
passeiam à sua volta
carregados de história e mistério.

A mão que agora se nega
prensou sucata
trancou algemas
traiu amigos,
a mão inútil.

A mão sem corpo dentro
escrevodoendo
poesia.

Enviado em 14 de setembro de 1999.


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