O MERCADOR DO FUTURO
Pretendemos, neste artigo, lançar um olhar sobre algumas facetas do tempo histórico relacionado com a questão da educação, utilizando, principalmente, o livro Para um Novo Conceito da Idade Média , do historiador Jacques Le Goff. O autor vai trabalhar com a idéia do tempo da Igreja e o tempo do mercador e as mudanças decorrentes de uma nova mentalidade comercial precursora do sistema capitalista de produção. Desta forma, pedimos licença a Jacques Le Goff, para, além de discutir os conceitos de tempo da Igreja e do mercador, inserir no debate o tempo do conhecimento, o nosso tempo.
O primeiro, é o tempo da Igreja Católica, que torna-se a religião oficial do Império Romano e, a partir daí, se organiza e se fortalece enquanto instituição pública. Controlando o poder e o saber de uma época, a igreja amplia sua influência tanto no âmbito espiritual quanto no temporal. Para o historiador Lucien Febvre, "Do nascimento até a morte, estabelece-se uma cadeia de cerimônias de tradições, de costumes e práticas que, sendo todas cristãs ou cristianizadas, amarravam o homem, mesmo contra sua vontade, escravizando-o apesar de suas pretensões de tornar-se livre. E, acima de tudo, cercavam sua vida privada." Era o tempo marcado pelos sinos dos mosteiros, lento, rural e controlado por uma instituição que introduz um novo conceito de tempo e história. A figura de Jesus Cristo surge como personagem histórico e o tempo torna-se linear e apocalíptico, tem uma origem, divide-se em períodos, a espera do juízo final. No dizer de Jacques Le Goff, o tempo da igreja tem "um sentido, uma direção, tende para Deus."
Nesse sentido, também a educação estava sob controle da Igreja, totalmente hermética, destinada somente a alguns eleitos do clero. Umberto Eco, romancista e especialista em semiótica, no livro O Nome da Rosa, consegue nos mostrar como era importante para Igreja deter o monopólio do saber e da cultura. Para ela, era vital controlar seu rebanho, negando acesso ao conhecimento, guardando a partir de seus mosteiros e conventos parte significativa de livros e códices produzidos pela antigüidade clássica. O personagem, venerável Jorge, guardião dos segredos da biblioteca do mosteiro, é capaz de cometer vários crimes para esconder o segundo livro da Poética de Aristóteles, que fazia um elogio ao riso, significando, para ele, uma alteração na ordem estabelecida. O próprio Jorge diz, "aqui a função do riso é invertida, elevada à arte, abrem-se-lhe as portas do mundo dos doutos." Mais à frente é conclusivo: "O riso libera o aldeão do medo do diabo, porque na festa dos tolos também o diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é sabedoria."
Assim, o venerável Jorge, personagem do romance de Umberto Eco, sintetiza o poder da igreja que, por muito tempo, colocou o homem do povo à margem da educação e do conhecimento, exercendo, sobre a cultura popular, um controle, pelo perigo que esta representava para o rompimento daquele poder autoritário e perpetuador da miséria humana.
O segundo tempo traz em seu bojo um turbilhão de acontecimentos. Um tempo não mais determinado pela Igreja, mas estabelecido por uma nova força. Segundo Le Goff, é o tempo do mercador, veloz, sujeito ao trabalho, ao câmbio e à troca, ao ouro, e controlado pelo homem. Começa, assim, um processo de laicização nos vários setores da vida humana, rompendo com as amarras do medo, cujas profundezas do inferno atormentavam a alma do homem; do dogma, que julgava o indivíduo nascido do pecado original.
As mudanças em curso desabrocham nos séculos XVII e XVIII, quando a burguesia em cena propaga suas idéias, que passam a valer como filosofia quase universal, atingindo a todos os homens. O progresso técnico e o desenvolvimento econômico estão na base dos acontecimentos, fomentando mudanças, preparando os alicerces da futura revolução industrial. Surge um novo vocabulário, fruto da evolução das idéias e, principalmente, de uma filosofia burguesa. Discute-se a felicidade, direito que se conquista pela razão; a virtude, valor que coloca a moral fora do controle religioso; a razão, governo de todos os povos e a utilidade, vinculada à propriedade e ao bem estar dos indivíduos. Assim, através de um debate intenso, radical, polêmico, essas idéias vão dar forma e sustentação política para as transformações que se processavam. A Revolução Francesa, no final do século XVIII, concentra toda esta força explosiva e transformadora, movimentando multidões, lutando pelos direitos sociais e universais do homem. Desta forma, encontramos o mercador "nesta maleabilidade do tempo, que não exclui a inexorabilidade dos pagamentos -, situam-se os lucros e as perdas, as margens de ganho ou de perda; aqui agem a inteligência, a habilidade, a experiência e a manha do mercador."
A idéia de educação e cidadania difundida pela burguesia, pregava igualdade e
acesso de todos à educação. Era preciso massificar a educação, ampliar os direitos
dos homens, inserir todos os cidadãos num projeto amplo de desenvolvimento
sócio-econômico.
Entretanto, no final do século XIX, a concepção burguesa de educação é repensada e
modificada. O discurso de igualdade perde seu significado. A fase revolucionária fazia
parte do passado e, agora, era necessário adequar as pessoas ao sistema, já que, para a
burguesia, as diferenças eram inevitáveis para manutenção do sistema capitalista. Era
a lógica da ordem capitalista na qual a educação tinha um papel importante a cumprir.
É neste sentido que o precursor da sociologia moderna, Émile Durkheim, propaga as diferenças e as especificidades no interior da sociedade. Segundo ele, "Nem todos somos feitos para refletir; e será preciso que haja sempre homens de sensibilidade e homens de ação." Para Durkheim, os homens estão distribuídos na sociedade de forma que cada um cumpre determinado papel e função. Portanto, para ele, o sistema educacional, que é reflexo da sociedade, possui um duplo caráter: uno e múltiplo. O aspecto uno refere-se a todos os sentimentos e práticas comuns a todos os indivíduos, como por exemplo, os valores religiosos. Por outro lado, a sociedade é caracterizada por seu aspecto múltiplo. Os homens são diferentes segundo posições sociais e funções e, portanto, necessitam de educação diferenciada. Durkheim, considera fundamental a ação da educação para manutenção do sistema: reforçando o que ele tem de homogêneo e, ao mesmo tempo, preparando o indivíduo para cumprir o papel específico que lhe foi destinado. Apesar de reconhecer as diferenças sociais geradas pelo capitalismo, Durkheim não tem a intenção de transformá-lo e, muito menos, criticá-lo. Seu objetivo principal é reformá-lo, tornando o indivíduo apto para atender às necessidades impostas pela sociedade, perpetuando o sistema.
O terceiro tempo é o tempo da informação e do conhecimento que, agora, historiadores, educadores, sociólogos, psicólogos, jornalistas e outros profissionais, tentam decifrar. O jornalista Gilberto Dimenstein, no livro Aprendiz do Futuro , nos informa que, "Com a globalização, as fronteiras perderam valor. Por causa dos novos meios de comunicação, em particular a Internet - a rede mundial de computadores -, nunca em toda a história da humanidade idéias, informações e produtos circulam com tanta rapidez." Este é o assunto do dia e temos a responsabilidade de pensar a nossa própria época. Nelson Brissac, falando sobre a Ética das Imagens, na TV Cultura, nos alerta sobre a metáfora da condição contemporânea, cujas imagens passam diante de nós com tanta rapidez, que devemos lançar diante delas um olhar múltiplo e reflexivo, restituindo sua lentidão e reconhecendo as diferenças em cada gesto.
O tempo do conhecimento não é igual ao tempo da Igreja, cujo poder e saber estavam concentrados nas mãos de uma única instituição. Sabemos que dificilmente isto ocorrerá, pois a instituição que tentar controlar o acesso à informação e ao conhecimento estará indo contra toda uma tendência mundial irreversível: a globalização digital. Tão pouco pode cumprir o mesmo papel do tempo do mercador, que massificou a educação para servir ao sistema capitalista, e que, em pouco tempo, tornou-se também detentor e controlador do saber, utilizando para isso outras instituições, como por exemplo, a escola. Estamos ainda engatinhando quanto à utilização das novas mídias, e a grande questão a ser discutida é o que fazer com tanta informação. Portanto, o desafio do nosso tempo é democratizar a informação, lançando sobre ela um olhar crítico, utilizado-a, principalmente, como instrumento revelador das diferenças e contradições de uma sociedade que tende a ver o ser humano como mero consumidor.
Finalmente, evocando mais uma vez, Jacques Le Goff, devemos trabalhar de forma que a informação e o conhecimento devam sempre "servir para a libertação e não para servidão dos homens." , principalmente no Brasil, onde a democracia e a cidadania não estão ainda plenamente consolidadas.
Sérgio Vaz Alkmim
alkmim@gold.com.br