TIRADENTES: A ORIGEM DO MITO E O MITO DE ORIGEM
"Amanheceu
o dia 21 de abril, que lhe abriria a eternidade" [Últimos momentos...p.108], assim
descreve o frei Raimundo Penaforte últimos momentos de Joaquim José da Silva Xavier.
Morre o homem, nasce o mito. Forjado pelos franciscanos, confessores dos inconfidentes, o
ideal cristão é projetado na figura de Tiradentes. Torna-se modelo de homem cristão,
generoso, arrependido, castigado, mas preparado para bem morrer. Segundo os confessores,
ele recebeu sereno e convencido da gravidade de seus pecados a sentença condenatória.
Após a leitura do Decreto Régio, que apenas o condenava à morte, sua reação foi de
alegria pelos outros réus favorecidos pelo perdão real, e pouco trabalho tiveram em seu
consolo. Descrevem sua caminhada para o cadafalso, como se fosse o próprio Cristo: beija
os pés e perdoa o carrasco; recebe a alva, despe a camisa e caminha com o crucifixo na
mão.
É desta forma que se formaliza a primeira tentativa de criar uma memória histórica da Inconfidência Mineira e, também, a construção da imagem de Tiradentes. Os frades confessores estavam preocupados em perpetuar, através de memórias e discursos, uma determinada versão que surge como vestígio de uma época e como representação dela. Demostram suas preferências e a imagem de si próprios, marcados pelos conflitos de uma sociedade.
O mito sobrevive. Martirizado, figura central de um acontecimento, sua imagem é a construção dos ideais cristãos: humildade, arrependimento e esperança de vida eterna.
O marco historiográfico que coloca a Inconfidência Mineira novamente em evidência é o livro de Joaquim Norberto de Souza e Silva, História da Conjuração Mineira, de 1873. Em um trabalho de fôlego, pela primeira vez são utilizados os Autos da Devassa e as memórias dos frades franciscanos. Na vida ou na morte, Tiradentes não foi bem acolhido pelo monarquista Joaquim Norberto: "Morrera o Tiradentes, não como um grande patriota, com seus olhos cravados no povo, tendo nos lábios os sagrados nomes da pátria e da liberdade (...) mas como cristão preparado há muito tempo pelos sacerdotes" [v.2, p.221]. Portanto, não acreditava que Tiradentes tivesse condições, principalmente pela sua falta de caráter, de ser o cabeça da conjuração.
Porém, os primeiros republicanos , em busca de um herói nacional, encontraram nele, o símbolo mais que perfeito. Utilizaram a imagem deixada pelos franciscanos, pois segundo o historiador José Murilo de Carvalho, em seu livro A Formação das Almas, naquele momento "Tiradentes não deveria ser visto como herói republicano radical, mas sim herói cívico-religioso, como mártir, integrador, portador da imagem do povo inteiro" [p.70]. Acertaram no alvo. Tiradentes caiu no gosto popular e nunca mais deixou de estar presente no nosso imaginário político e social.
No dizer de Mircea Eliade, historiador das religiões, sobrevive na condição humana a angústia perante o tempo. Desta forma, o pensamento mítico não está morto, sobrevive adquirindo novas formas, novos disfarces e, principalmente, reside sob os auspícios da historiografia.
O Tiradentes dos frades franciscanos consegue reunir em torno de si as principais características do pensamento mítico analisado por Eliade. Segundo ele, o cristianismo conserva um comportamento mítico através do tempo litúrgico que acaba por recusar o tempo profano, recuperando periodicamente um grande tempo, as origens primordiais. A imitação de Cristo como modelo exemplar, a repetição de seus passos pela vida, a morte, a ressurreição, constituem a contemporaneidade do cristão.
A imagem de Tiradentes, herói nacional, mito de origem moderno do nosso ideal de
liberdade, sobrevive no tempo. A historiografia da Inconfidência Mineira e o jogo de
interesses políticos e ideológicos cumprem o papel de perpetuar o mito e alimentar
ilusões no imaginário coletivo. O cenário cristão da sociedade brasileira acalenta o
virtuoso Tiradentes.
Sérgio Vaz Alkmim
alkmim@gold.com.br